Irmã de Davi da Silva espera há quase 12 anos julgamento do caso: 'Eu só quero que isso acabe'
Davi da Silva desapareceu em 2014 durante abordagem da PM no Benedito Bentes, em Maceió Arquivo pessoal "Sinceramente, eu só queria que isso acabasse logo, po...
Davi da Silva desapareceu em 2014 durante abordagem da PM no Benedito Bentes, em Maceió Arquivo pessoal "Sinceramente, eu só queria que isso acabasse logo, porque toda essa situação mexe muito com o emocional da minha família. É muito difícil para a gente lidar com tudo isso". É com esse sentimento que Ana Paula da Silva espera, há quase 12 anos, o desfecho do assassinato do irmão Davi da Silva, um adolescente de 17 anos, que desapareceu após uma abordagem policial, em 25 de agosto de 2014. A família busca não só Justiça mas, também, por um corpo, ou o que resta dele, para fechar um ciclo que parece interminável. Durante aquela ocorrência, Davi estava acompanhado do amigo Raniel Victor. Eles foram abordados por uma guarnição com quatro militares do Batalhão Radiopatrulha da Polícia Militar (RPPM), no Conjunto Cidade Sorriso I, localizado no Benedito Bentes, em Maceió. O adolescente estava com maconha. A família nega o envolvimento dele com o tráfico de drogas. Hoje, com 38 anos, Ana Paula conta que o dia em que o irmão desapareceu continua vivo em sua memória. Segundo ela, era manhã e Davi tinha combinado de realizar um serviço com um colega, que desmarcou de última hora. “Minha mãe pediu para ele ir comprar pão e pouco tempo depois chegou o Raniel na casa dela, chamando o Davi para sair. Duas horas depois, o Raniel voltou até a casa e perguntou se ela tinha ido até à base policial do [Conjunto José] Aprígio Vilela, porque os policiais tinham levado o Davi. Daí por diante, a gente começou uma busca por ele e até hoje nunca soube onde eles colocaram meu irmão”, relembrou Ana. Na guarnição envolvida no caso estavam os militares Eudecir Gomes de Lima, Carlos Eduardo Ferreira dos Santos, Victor Rafael Martins da Silva e Nayara Silva de Andrade. Eles foram indiciados e acusados pelos crimes de tortura, sequestro e cárcere privado, homicídio qualificado e ocultação de cadáver. Eles nunca foram julgados (veja mais abaixo). Veja os vídeos que estão em alta no g1 Mãe de Davi morreu lutando para encontar o filho A mãe de Davi, Maria José da Silva, buscou o filho durante 11 anos, até o dia em que morreu, em 12 de dezembro de 2025, aos 68 anos. A filha Ana Paula acredita que a mãe viveu angustiada por anos por saber que estava morrendo sem ver a Justiça sendo feita. “O que mais me marcou e me marca até hoje foi a busca incansavelmente da minha mãe por Justiça. Ela morreu sem sequer ver o desfecho do caso e isso me deixa muito triste. Como toda mãe, ela ainda tinha esperança de que ele estivesse vivo. Eles [os policiais] ocultaram [o corpo] e nem deram o direito dela, pelo menos, de fazer um enterro digno para o filho. Isso angustiou minha mãe por anos. Acredito que até no último dia da vida dela”, lamentou. Maria José mostra cartaz feito por viznhos para procurar Davi da Silva Waldson Costa/G1 LEIA TAMBÉM: Mãe procura adolescente que sumiu após abordagem policial em Maceió Davi foi sequestrado, torturado e morto por PMs, conclui investigação MP denuncia PMs por morte de Davi da Silva, desaparecido há quase 1 ano Juiz concede proteção a jovem que viu Davi ser levado por PMs em AL Principal testemunha do caso Davi da Silva é assassinada em Maceió Polícia trata desaparecimento de Davi da Silva como homicídio, diz delegada Raniel: principal testemunha foi assassinada Raniel Victor Oliveira da Silva era amigo de Davi da Silva e foi a principal testemunha do desaparecimento do adolescente. Ele chegou a ser incluído no programa de proteção mas, em 24 de novembro de 2015, dois dias após deixar o programa, foi encontrado morto com dois tiros nas costas e marcas de pedradas no Benedito Bentes, aos 19 anos. À época, a morte foi confirmada pelo advogado do Centro de Defesa dos Direitos da Criança e Adolescente - Zumbi dos Palmares (Cedeca), Pedro Montenegro. O que diz o Estado? O g1 entrou em contato com assessoria da Polícia Militar questionando os seguintes pontos: Quais militares envolvidos no caso continuam no exercício da função? O que não está em atividade, foi reformado ou expulso da corporação? Quando ele saiu? Dos militares que seguem em exercício, eles estão nas ruas ou foram remanejados para atividades administrativas? Em 2018, a PM arquivou o processo contra esses militares. Após isso, algum outro processo administrativo ou de sindicância foi aberto para investigá-los? Qual a data que os acusados ingressaram na Polícia Militar? Algum dos militares acusados já respondeu ou responde a alguma investigação, denúncia ou processo administrativo por suspeita de outros crimes? Se sim, quais são os militares e quais as investigações? Quando elas ocorreram? Durante esses 12 anos do desaparecimento de Davi, algum militar foi promovido? Se sim, qual militar? Quando foi a promoção e qual função eles passaram a ocupar? Como a reportagem não teve resposta, foi dada entrada em um pedido junto ao Sistema Eletrônico do Serviço de Informação ao Cidadão (e-SIC), questionando os mesmos pontos. A solicitação foi feita no dia 18 março, com previsão de resposta até 7 de abril. Em 4 de abril, a gestora de abertura do e-SIC, Niely Monteiro Melo, prorrogou o prazo para a resposta com a justificativa de que "diante da complexidade e da abrangência dos dados solicitados, que envolvem a consolidação de informações detalhadas, faz-se necessário um levantamento minucioso junto a diferentes setores desta Corporação". O e-SIC informou, ainda, que parte das informações demandadas exige "tratamento, cruzamento e validação de dados provenientes de sistemas distintos, bem como análise criteriosa para garantir a fidedignidade e a conformidade com as normas de proteção de dados pessoais e sensíveis". Julgamento já foi adiado duas vezes Fórum de Maceió Ascom/ TJ-AL O julgamento dos réus Eudecir Gomes de Lima, Carlos Eduardo Ferreira dos Santos, Victor Rafael Martins da Silva e Nayara Silva de Andrade foi adiado duas vezes. Inicialmente eles seriam julgados em outubro de 2025 e, posteriormente, em abril de 2026. O advogado Arthur Lira, que faz a defesa da família de Davi, explica que o primeiro adiamento aconteceu porque a defesa dos acusados entrou com um pedido de habeas corpus e, enquanto ele era analisado, uma liminar suspendeu o júri até o julgamento do mérito. Como o habeas corpus foi derrubado, o julgamento ficou marcado para abril deste ano. A defesa informou que o segundo adiamento aconteceu após um ato ordinário, que não fundamentou o pedido. Segundo Arthur, esses pedidos acontecem, geralmente, por uma questão administrativa. "Em contato com o advogado, ele nos informou sobre o adiamento. Isso é uma falta de respeito com a família mais uma vez", lamentou a irmã de Davi da Silva, Ana Paula.